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12/04/2026·10 min·Inteligência Artificial, Setor Público, Administração Pública, Mercado de Trabalho

Inteligência Artificial
Setor Público
Administração Pública
Mercado de Trabalho

A IA vai substituir funcionários públicos?

O problema não é quantos empregos desaparecem, é como a administração pública atrai quem precisa e o que faz com quem deixa de ter função clara

Índice

Em março de 2026, a Anthropic publicou um estudo sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho, "Labor Market Impacts of AI", baseado em dados reais de utilização do Claude. O estudo inclui um gráfico radar que mostra, por categoria ocupacional, a diferença entre a cobertura teórica da IA (o que a IA poderia fazer) e a cobertura observada (o que as pessoas realmente fazem com ela). Esse gráfico correu o LinkedIn, foi republicado centenas de vezes e gerou títulos sobre como a IA vai substituir gestores, financeiros, advogados e administrativos.

Gráfico radar "Theoretical capability and observed usage by occupational category": a área azul (cobertura teórica da IA) cobre perto de 100% em categorias como Management, Business & Finance, Computer & Math, Legal e Office & Admin, enquanto a área vermelha (cobertura observada nas conversas reais com o Claude) raramente ultrapassa os 35-40%, concentrando-se sobretudo em Computer & Math e Office & Admin.
Cobertura teórica vs. observada da IA por categoria ocupacional, a partir do estudo Labor Market Impacts of AI da Anthropic (Figura 2).

O problema é que a maior parte de quem o partilhou não leu o estudo. Ou leu na diagonal.

O estudo que toda a gente partilhou e quase ninguém leu

Os números são impressionantes à superfície, a cobertura teórica da IA ultrapassa 90% em categorias como Computer & Math, Business & Finance e Management. Olhando só para isto, parece que nove em cada dez tarefas destas profissões podem ser feitas por IA mas a cobertura observada - o que as pessoas realmente fazem com o Claude - fica entre 20 e 36% nessas mesmas categorias. Há um fosso enorme entre o que a IA pode fazer e o que está a ser feito.

Há também um problema metodológico, a observabilidade depende do uso. Se numa determinada profissão as pessoas não usam IA, o estudo conclui que a exposição é baixa mas isso não significa que a IA não possa fazer aquele trabalho, significa que ninguém a está a usar para isso - são coisas diferentes.

Funciona também ao contrário: Se um gestor usa o Claude sobretudo para escrever emails e rever documentos, a leitura superficial é que a IA pode substituir gestores mas gerir não é escrever emails. É tomar decisões com informação incompleta, lidar com pessoas, navegar contexto político e institucional. A IA ajuda em partes do trabalho mas isso não torna o trabalho substituível, torna-o diferente.

O próprio estudo diz que não encontrou aumento sistemático de desemprego nos trabalhadores mais expostos. Diz que a tendência mais recente aponta para mais augmentation (IA a colaborar com humanos) do que automation (IA a substituir humanos) e diz que a cobertura real ainda é uma fração do que é teoricamente possível.

Nada disto invalida o estudo! É um trabalho sério e provavelmente o melhor que existe neste momento sobre utilização efectiva de IA no mercado de trabalho, mas a leitura que ganhou tração diz mais sobre quem a partilhou do que sobre o estudo.

O que acontece se aplicarmos esta lógica à administração pública

Dito isto, o estudo pode servir como ponto de partida para uma discussão que vale a pena ter: e se a cobertura teórica se aproximar da observada? E se, ao longo dos próximos anos, a IA for absorvendo uma parte significativa das tarefas administrativas, de análise, de triagem, de validação documental que hoje ocupam milhares de pessoas na administração pública?

No privado, se uma empresa descobre que pode fazer o mesmo com menos pessoas, ajusta. Despede, reorganiza, contrata perfis diferentes - pode ser doloroso, pode ser mal feito mas o mecanismo existe. No setor público português, esse mecanismo praticamente não existe - um funcionário público com vínculo por tempo indeterminado não é despedido porque a sua função foi automatizada e, quando uma entidade é extinta, os trabalhadores são reafectados a outros organismos. Não vão para o desemprego, vão para outro sítio, muitas vezes sem que haja uma função clara à espera deles.

A pergunta então não é "quantos empregos vão desaparecer na AP?" mas "o que é que a AP faz com a capacidade que se liberta?"

O paradoxo: precisamos de mais gente e podemos ter gente a mais

Portugal tem cerca de 766 mil funcionários públicos, o que representa cerca de 14,6% da população empregada e, comparando com a OCDE, estamos abaixo da média. Os países nórdicos, com melhor reputação em indicadores de qualidade de serviço, têm percentagens acima de 25% - em termos agregados, não somos um país com excesso de funcionários públicos.

Ao mesmo tempo, os quadros estão a envelhecer rapidamente, há concursos que ficam desertos e há áreas como tecnologia, saúde e engenharia onde a AP não consegue competir com o privado por talento qualificado. Neste momento, o problema visível é de falta de pessoas.

Mas se começarmos a automatizar seriamente o trabalho administrativo e burocrático, podemos descobrir que em certas funções temos mais pessoas do que as que são necessárias. Não em todas, não de forma homogénea, mas o suficiente para criar um problema real: pessoas cuja função principal deixou de existir, num sistema que não sabe o que lhes dar para fazer.

O problema da atração

Nos últimos anos, o setor privado tem-se debatido para oferecer o que as novas gerações procuram - sentido de missão, impacto real, propósito para além do retorno para os acionistas. É uma pergunta difícil para quem, por natureza, existe para gerar retorno. A AP, pela natureza do que faz, já tem isto. Trabalhar na modernização de um serviço público, na saúde, na educação, na justiça, é trabalho com impacto directo na vida das pessoas, e os horários, apesar de tudo, são mais previsíveis do que em muitas consultoras ou startups.

O problema é que esta vantagem só funciona se o básico não estiver partido. Um técnico superior que entra na função pública com um salário que mal cobre a renda em Lisboa não fica pela missão, fica até encontrar alternativa. Para isto funcionar na prática falta concretizar o mínimo - salários que permitam viver com fôlego, progressão que não dependa de décadas de espera e autonomia para quem demonstra capacidade.

O problema da saída

Há outro lado nesta conversa.

Se a IA libertar capacidade e houver pessoas cuja função principal foi absorvida, o caminho natural é requalificar - faz sentido no papel. Mas na prática, a requalificação exige duas coisas: que a organização tenha um plano e que as pessoas queiram.

O plano é difícil porque a AP está ocupada a funcionar, não há tempo nem estrutura para programas de requalificação sérios quando o dia-a-dia já consome tudo. A gestão da mudança que seria necessária não está a acontecer e, com a velocidade a que tudo se move, provavelmente não vai acontecer a tempo.

E mesmo que houvesse plano, há uma pergunta que fica: requalificar para fazerem o quê? Se a narrativa dominante é que a IA substitui tudo, para que é que estamos a requalificar? Não é claro quais são os novos trabalhos, nem se vão existir por tempo suficiente para justificar o investimento.

Nos casos em que a requalificação não é possível - porque a pessoa não quer, porque não tem perfil, porque a função desapareceu - o que se faz? No privado, despede-se. No público, não.

A abolição de institutos e estruturas de missão é muitas vezes apresentada como "redução do Estado" mas, na prática, os trabalhadores não desaparecem, são redistribuídos. O custo para os cofres do Estado pode até manter-se - o que muda é onde as pessoas estão sentadas, não quantas pessoas existem.

Nem como está, nem como o privado

Não tenho uma solução limpa para isto mas sei que o modelo actual - onde entrar é lento e sair é quase impossível - não serve. E copiar o modelo do privado também não serve, porque o serviço público não é uma empresa e não pode ser gerido como tal.

O que me parece necessário é repensar os dois lados. Na entrada, tornar a AP competitiva para quem traz valor; na saída, criar mecanismos que não existem hoje, que não sejam o despedimento livre do privado mas que também não sejam a inamovibilidade total que temos agora. Algo que permita gerir o excedente com dignidade, sem fingir que o problema não existe.

A IA não vai substituir funcionários públicos, pelo menos não da forma que os títulos do LinkedIn sugerem, mas vai expor que a AP tem pessoas em funções que podem ser automatizadas, ao mesmo tempo que não consegue contratar para as funções que realmente precisa - e enquanto o modelo de entrada e saída não for repensado, essa tensão só vai aumentar.

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